Clube do Samba, por Luiz Fernando Vianna

Atualizado: Set 23


Luiz Fernando Vianna / foto: Leo Aversa


A coisa devia estar no ar. Num dia de janeiro de 1979, João “teve uma ideia de dar frio na barriga, dessas que dá certo ou dá morte”. Poucas horas depois, ele recebeu um telefonema de um amigo jornalista, Antonio Carlos Austregésilo de Athayde, que pretendia fazer para o “Jornal do Brasil” uma reportagem sobre a hegemonia das discotecas e da música estrangeira, mas apontando para uma reação dos artistas nacionais.


João, então, contou a ideia que tivera: criar um Clube do Samba para reunir cantores, compositores e músicos que estavam com poucas oportunidades de trabalho por causa da tal hegemonia. Brilharam os olhos e ouvidos do jornalista (e diplomata, vindo de passagens por Praga e Buenos Aires), que marcou um encontro para aquela mesma noite, na casa de João, no número 50 da Rua José Veríssimo, no Meier.


Na reunião estiveram os dois, Ângela Nogueira e uma garrafa de uísque, esvaziada enquanto o trio se enchia de planos. O problema foi se lembrar no dia seguinte. Athayde achou melhor levar no próximo encontro um advogado para elaborar o estatuto do clube, que seria fundado oficialmente apenas em 5 de maio, já com muitos sambistas atraídos para a causa.


Ainda em janeiro, saiu a matéria no Caderno B. Título: “Clube do Samba começa a se reunir depois do carnaval”. Subtítulo: “João Nogueira convoca pra resistência”.

A primeira “reunião festiva” – havia as administrativas, tidas como mais sérias, às quartas-feiras – foi preparada para ganhar cobertura do “Fantástico”. Em reportagem encontrável no YouTube, aparecem falando e cantando João, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Beto Sem Braço e muitos outros, entre eles um otimista e beligerante Sérgio Cabral.


– O samba sempre foi o principal inimigo da música estrangeira. 79 é o ano do samba. É o ano em que o samba vai vencer a música estrangeira – disse ele à emissora que levou ao ar, em 1978, a novela “Dancin' Days”, de Gilberto Braga, grande sucesso que consolidou a presença da discoteca (o gênero dançante e o estilo de casa noturna) no país, já forte desde o estouro, no ano anterior, do filme “Os embalos de sábado à noite”, com John Travolta.

João se investiu de tal xenofobia na época que, numa pelada no campo de Chico Buarque, respondeu assim aos pedidos insistentes de um colega de time:

– Não passo a bola pra roqueiro.


Quem se uniu em torno do chamado de João não queria pouco. Era um “movimento de resistência ao fim da música brasileira”, como recorda Athayde. A música brasileira não acabou e a discoteca praticamente acabou, mas não necessariamente por causa dos esforços dos sambistas, pois a vitalidade da primeira e a superficialidade da segunda eram garantias desses destinos. No entanto, poucas vezes o samba foi tão exaltado quanto nos anos do movimento que João, para seu bem e seu mal, liderou.


O lado negativo se configuraria na década seguinte. Ao decidir dar uma continuidade comercial à sua ideia essencialmente política e abrir na Barra da Tijuca, em 13 de maio de 1983, a casa noturna Clube do Samba, João se enredou em dívidas das quais jamais se livraria.

Era o Brasil da inflação altíssima, dos preços descontrolados, e o cantor não era um empresário, agindo sempre mais com o coração do que com o bolso. Foi alvo de desfalques no caixa e de processos trabalhistas de ex-funcionários, inclusive de gente que o roubara.


Embora a empresa Samba S/A tivesse 32 sócios (Martinho, Beth, Roberto Ribeiro, Alcione, Dona Ivone Lara e não artistas também), João resolveu assumir as dívidas sozinho, por entender que a ideia do projeto era sua. Há quem pense que os amigos deveriam ter dividido o ônus, mas não foi assim que o próprio João pensou.

Nem sua mulher ele queria muito enfronhada:

– Você tem que cuidar da casa, das crianças. Não se mete no clube.


Antes da derrocada, veio a bonança, sobretudo a de devolver ao samba o papel de protagonista. Nos quase dois anos em que realizou bailes na sede do Flamengo no Morro da Viúva, o clube viu o salão receber cerca de 3.000 pessoas toda sexta-feira. Elas iam dançar ao som de uma orquestra de 30 músicos, regida por Nelsinho e formada por Wilson das Neves, Luna, Elizeu, Marçal, Trambique, Luizão Maia, Juarez Araújo e outros craques. Chico Buarque citou o clube, que tanto admirava, na letra de “Já passou”, em 1980.


Exilados que voltavam ao Brasil por causa da anistia passavam por lá, caso de Vladimir Palmeira. Era um dos melhores assuntos da cidade, e também no carnaval: o Bloco do Clube do Samba estreou em 1980 com uma música feita em cima da hora por Mauro Duarte e nunca parou de desfilar, sendo sempre divertidamente crítico, como no enredo de 1986: “Para de roubar que dá!”.


Com o clube, João impulsionou o samba e, por tabela, a si mesmo. Seu nome estava a toda hora nos jornais. E, se os trabalhos na Odeon vinham num crescendo de reconhecimento e vendas, só se podia prever algo ainda melhor para o disco de 1979. E a previsão se confirmou, mas não na Odeon.


No início do ano, João se encontrou por acaso na Rádio Tupi com Paulo Debétio, que trabalhara na editora da EMI-Odeon e assim conhecera o sambista. Daquele pau-de-sebo de 1971, “Quem samba fica...”, Debétio participou como compositor, ao lado de Jovenil Santos, de “Eu, avenida e você”, gravada por Roberto Ribeiro.


Mas esse pernambucano que chegara ao Rio em 1965 após passagens por Paraná e São Paulo queria também ser produtor – e ganhar dinheiro. Já fazia parte do time de produtores da PolyGram, especialmente do selo Polydor, destinado aos artistas populares (Evaldo Braga, Tim Maia, Odair José, Diana).


E resolveu que João seria sua grande aposta.

– PolyGram, meu irmão? – espantou-se o cantor ao ouvir na Tupi a sondagem.

Embora adorasse a Odeon, disse que aceitaria conversar se houvesse um dinheiro consistente. Foi sincero: precisava comprar um apartamento. Para ter um bem valorizado em seu nome e porque a bela casa da José Veríssimo – localizada por Milton Manhães e comprada por ele de uma senhora que só queria alugá-la – se transformara na sede do Clube do Samba, o que o impedia de acordar sem ter um estranho em seu quintal, ou pior: o impedia de dormir.


Debétio levou a mensagem a seus superiores: Roberto Menescal, um fã de João que ficou empolgado; e Heleno de Oliveira, um egresso da área comercial interessado em tudo o que pudesse dar retorno. E João era a bola da vez. Mais: a PolyGram não tinha um nome de ponta no samba, já que Alcione ainda era uma cantora em ascensão e quase todas as outras estrelas estavam na Odeon e na RCA Victor. Toparam o pedido de João e dobraram a aposta: um apartamento no condomínio Barramares, na Barra da Tijuca, e um terreno no Recreio dos Bandeirantes.


João se entusiasmou, mas Debétio deu sua cartada:

– Meu objetivo é te produzir.

– Mas eu tenho um produtor, o Paulinho Pinheiro.

– Fazemos o disco juntos.


Não aconteceu. Paulinho se sentiu tendo o tapete puxado e, num encontro na gravadora, sequer retribuiu a mão estendida por Debétio para um cumprimento.

Mas o novo produtor não entrou vulnerável na empreitada. Em primeiro lugar, chamou para fazer os arranjos Geraldinho Vespar, agora dividindo a função com Sérgio Carvalho – curiosamente, Geraldinho estreara em “Dancin' days” como um dos diretores musicais de novelas da TV Globo, emissora em que trabalharia por 13 anos. E Debétio também se certificou de que a PolyGram poria todo o seu aparato comercial e de divulgação a serviço do disco.


– Vamos mostrar que temos o maior sambista e o melhor produto – discursou ele numa reunião.


A escolha do título, “Clube do samba”, foi fundamental para aproveitar a fama da outra empreitada. E, com todo o esforço da companhia, o LP vendeu de cara 78 mil unidades para, depois, chegar a cerca de 160 mil, o melhor resultado de um disco de João. A faixa que puxou o sucesso, tocando muito nas rádios, ganhou mais do que um clipe; foi feito um curta-metragem em super-8, dirigido por Jom Tob Azulay, que começava com João e Sérgio Cabral reclamando do som das músicas de discoteca para depois caírem no mocotó e no samba preparados no quintal da José Veríssimo. “Súplica”, a música que todos cantavam, era uma parceria de João com Paulinho Pinheiro.


E ela nasceu nos estúdios da EMI-Odeon. Mais precisamente, no amplo e impecável estúdio que, com a presença de diversos artistas e do príncipe Charles, a companhia inglesa inaugurara em 1978 em sua nova sede, na Rua Mena Barreto, em Botafogo. O polonês Zoltan Merck ficou encarregado de zelar para que nada maculasse o espaço, nem um grão de poeira, muito menos uma cinza de cigarro, o que o tornava odiado pelos músicos.


Ao testemunhar uma briga do fumante maestro Nelsinho com o guardião polonês, Paulinho Pinheiro imaginou que todo aquele zelo não teria vez no futuro, nem mesmo a placa com o nome do príncipe Charles seria importante. As músicas ali gravadas, sim, é que restariam. Na mesma noite, começou a compor:


“O corpo a morte leva

A voz some na brisa

A dor sobe pras treva

O nome a obra imortaliza”.


Concluiu a primeira parte e mostrou a João, que jogou a melodia lá no alto para o parceiro completar a letra:


“Vem a mim, ó música!

Vem no ar

Ouve de onde estás a minha súplica

Que eu bem sei talvez não seja única”.


Geraldinho Vespar pôs cordas para escalar essa subida.


A música, um pedido de inspiração, se tornou a primeira parte do que Paulinho batizou de “Trilogia do alumbramento” – “Poder da criação” (o ato de criar) e “Minha missão” (o ato de cantar) são as outras.


O espírito combativo de João, tão em evidência na criação do Clube do Samba, transpareceu também nas outras duas parcerias com Paulinho que integram o disco. “Canto do trabalhador” fala em “trabalhar sem fazer alarde”, “frutos da liberdade” e “cantar a verdade”. Já “Iô iô” é uma resposta bem pouco sutil da dupla a Caetano Veloso, que andava falando mal do Rio:


“Iô iô exalta a Bahia, porém

Nunca mais por lá ficou

E deu pra falar mal do Rio

Morando aos pés do Redentor

(...)

Você vive inventando moda

Jogada pra estar sempre em cartaz

E é tanta conversa fiada que

Agora, ninguém aguenta mais”.


Mas havia muita festa no disco.

A paixão de João pelo futebol apareceu em três faixas. A que fez mais sucesso não era dele, mas uma recriação do “Samba rubro-negro”, de Wilson Batista. Em vez de “Rubens, Dequinha e Pavão”, ídolos dos anos 50, ele exaltava “Zico, Adílio e Adão”, jogadores de um time que estava se sagrando tricampeão estadual e se preparando para ganhar, nos quatro anos seguintes, três títulos brasileiros, um sul-americano e um mundial.


João ia a praticamente todos os jogos do Flamengo no Maracanã, e às vezes ia no ônibus da delegação, cantando com a equipe. Costumava rumar para o estádio sem ingresso e, ao ser reconhecido por um dirigente, era logo levado às cadeiras especiais.

O botafoguense Cláudio Jorge o acompanhou numa vez em que ele foi parar no fosso atrás dos bancos de reservas, à beira do gramado.


No fim do jogo, correu para abraçar Zico e pediu para Cláudio, que estava fazendo curso de fotografia, registrar aquele momento. O violonista apertou o botão algumas vezes, mas depois viu que o filme não tinha rodado, mal que a era digital sepultou.

– Mas, Cláudio, que porra de curso é esse que você está fazendo? – irritou-se muito João ao receber a notícia.


Ao narrar os problemas de uma sexta-feira 13 em “Dia de azar”, João, em parceria com Paulo Valdez, mostrava-se preocupado, “pois hoje quem joga é o Mengo”.


É uma crônica, como há outra no disco, “Nicanor Belas-Artes”, a única música feita por João com o humorista Chico Anysio, sobre um bicheiro pobre que começa a botar “banca de bacana”.


A terceira que cita o esporte preferido do país é “Arquibundo”, um misto de arquiteto e vagabundo que gosta de “muita praia, muita cana e muito futebol”.


A segunda parte do samba apenas com surdo e baixo é uma surpresa do arranjo. Maurício Tapajós, que criou esta com João, também é o parceiro em “Dama da noite”, na qual boemia e poesia voltam a ser o tema.


Depois do sucesso de “Maria Rita”, o cantor não poderia ficar sem Luiz Grande, que entrou com “Amor de dois anos”, da mesma linhagem sincopada da anterior.

E Monarco, presença frequente, reaparece ao lado de Alcides Malandro Histórico com “Enganadora”, um samba de estrutura rara, apenas com uma primeira parte longa. Na introdução, João anuncia o apelido do amigo: “compadre que Deus me deu”.


“Clube do Samba” ainda foi o disco em que, enfim, Gisa Nogueira, após três tentativas, convenceu o irmão a gravar “Terno branco”, que ela achava ter a cara dele, falando de lua, malandro, poeta e de uma musa (“beleza de uns olhos azuis”).


João ainda deu sua versão para “Esse meu cantar”, composição que já tinha alguns anos de vida e não por acaso foi posta depois de “Canto do trabalhador”, pois fala “do corpo marcado/ De quem já apanhou de aroeira”, “do povo que vive na poeira”. Mas também tem versos absolutamente autobiográficos: “Eu sou o filho mais moço/ Do pai que de morto/ Me deixou a rua pra eu ver o desgosto”.


Diogo Nogueira tem tatuado no braço esquerdo a foto do pai sorridente que está na capa desse disco, feita por Gilberto Grecco. Foi tão especial o 1979 de João que criações suas com Paulinho ainda fizeram sucesso nas vozes de três cantoras importantes: “Mulata faceira” com Elizeth Cardoso; “Eu hein, Rosa”, com Elis Regina; e “Paraíba do Norte, Maranhão”, com Alcione. Amado por seus colegas e, agora, pelo grande público, o sambista decolara e nada parecia capaz de segurá-lo.


O Clube do Samba é o capítulo 6 da série SambaBook, da editora Casa da Palavra, dedicada a João Nogueira.


Clube do Samba (1979)

Gravadora: Polydor

Produção: Paulo Debétio\Polydor

Produção: Paulo Debétio

Músicas

1 – “Súplica” (João Nogueira/Paulo César Pinheiro)

2 – “Arquibundo” (João Nogueira/Maurício Tapajós)

3 – “Dama da noite” (João Nogueira/Maurício Tapajós)

4 – “Nicanor Belas-Artes” (João Nogueira/Chico Anysio)

5 – “Canto do trabalhador” (João Nogueira/Paulo César Pinheiro)

6 – “Esse meu cantar” (João Nogueira)

7 – “Amor de dois anos” (Luiz Grande)

8 – “Dia de azar” (João Nogueira/Paulo Valdez)

9 – “Enganadora” (Monarco/Alcides Dias Lopes)

10 – “Terno branco” (Gisa Nogueira)

11 – “Iô iô” (João Nogueira/Paulo César Pinheiro)

12 – “Samba rubro-negro (O mais querido)” (Wilson Batista/Jorge de Castro) Gravadora:



Luiz Fernando Vianna é jornalista, com passagens por "O Globo", "Folha de S. Paulo" e outros veículos. Coordena a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles. É autor de livros sobre música popular, como "João Nogueira - Discobiografia" (Casa da Palavra) e "Aldir Blanc - Resposta ao tempo" (Casa da Palavra), e um biográfico, "Meu menino vadio - Histórias de um garoto autista e seu pai estranho" (Intrínseca). Link para o livro "Meu menino vadio"


Filme e CD sobre os 40 Anos do Clube do Samba estão sendo produzidos lentamente. Os produtores estão arrecadando fundos atraves de uma Vaquinha na Internet.


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A Cedro Rosa está produzindo um CD e um Documentário sobre o Clube do Samba.

O disco digital já esta nas plataformas digitais. O filme e o CD fisico estão em fase de captação de verba para a produção na vaquinha da Cedro Rosa.


CD digital

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